É difícil viver de hidromel no Brasil?
Eu ouvi essa pergunta de um cara durante um evento em que estava palestrando e fiquei pensando sobre ela. Afinal, é difícil viver de hidromel no Brasil? Minha resposta é que sim, pode ser difícil, mas existe uma diferença enorme entre reconhecer as dificuldades de um mercado e esperar que as coisas aconteçam sem fazer nada para mudar a própria realidade. E é justamente sobre isso que eu quero falar, porque, mais do que discutir o mercado do hidromel brasileiro, quero compartilhar algo que aprendi ao longo da minha trajetória como empreendedor, passando por diferentes negócios, errando, acertando e entendendo o que realmente faz a diferença quando queremos construir alguma coisa.
Quando alguém olha para as minhas fotografias de terno e gravata, segurando uma taça de hidromel e recebendo prêmios, está vendo uma parcela muito pequena do trabalho. Talvez 1%. Os outros 99% são muito menos glamourosos: sou eu descabelado, sujo, trabalhando na produção, resolvendo problemas, fazendo manutenção e lidando com tudo aquilo que precisa ser feito para manter um negócio funcionando. Inclusive, enquanto gravo este vídeo, estou reformando a minha produção, repintando paredes que sofreram com a umidade depois das chuvas intensas. É esse o cotidiano de quem empreende. Os prêmios são importantes, as conquistas merecem ser comemoradas, mas não representam a totalidade do caminho que existe até chegar lá.
Existe, inclusive, uma sala no segundo andar da minha produção onde guardei coisas de outros empreendimentos que tive ao longo da vida. Já tive escola de teatro, estúdio de música, loja de calçados, marca própria de calçados de couro, produção de camisetas e serigrafia. Foram negócios diferentes, em áreas completamente distintas, mas que me ensinaram algo em comum: todos exigiram investimento. Não estou falando apenas de dinheiro, mas também de tempo, conhecimento, dedicação e disposição para aprender o que eu ainda não sabia. Esses negócios deram certo, embora eu tenha decidido seguir outros caminhos, e a experiência que acumulei em cada um deles continua presente na maneira como conduzo o meu trabalho hoje.
E é aqui que entra a questão do hidromel. Quando alguém diz que é difícil viver de hidromel no Brasil, eu concordo que existem desafios reais. Estamos falando de um mercado que exige conhecimento técnico, capacidade de produção, qualidade, posicionamento, gestão e, principalmente, disposição para aprender continuamente. Porém, uma coisa é reconhecer essas dificuldades e procurar maneiras de superá-las; outra, completamente diferente, é ignorar as oportunidades disponíveis e depois concluir que o mercado não oferece condições para crescer. É justamente essa segunda postura que me incomoda, porque vejo iniciativas sendo organizadas para ajudar quem deseja entrar nesse setor ou desenvolver o próprio negócio, mas nem sempre as pessoas demonstram interesse em aproveitar essas oportunidades.
Existe uma associação que reúne pessoas do setor, promove conexões, estimula o networking e cria oportunidades para compartilhar conhecimento. Ainda assim, há quem não se associe. Existem encontros e iniciativas voltadas à formação de produtores, inclusive com cursos gratuitos para quem quer aprender a fazer hidromel, mas há quem não participe. Agora, no final de outubro, teremos o segundo Congresso Técnico Brasileiro de Hidromel, com palestras, discussões técnicas, diferentes abordagens sobre a bebida e profissionais convidados, incluindo um MasterChef para falar sobre gastronomia. É uma oportunidade de aprender, conhecer pessoas, trocar experiências e ampliar a visão sobre o mercado. Os ingressos estão à venda, e quem realmente deseja transformar o hidromel em um negócio precisa olhar para iniciativas como essa e entender o valor que elas podem ter na própria trajetória.
Também existem os concursos de hidromel, e não estou falando exclusivamente daqueles organizados pela associação. Há diferentes oportunidades para inscrever produtos e receber avaliações de profissionais experientes, incluindo sommeliers e especialistas capazes de identificar características sensoriais, apontar ajustes e ajudar o produtor a compreender melhor aquilo que está colocando no mercado. Uma avaliação bem conduzida pode revelar problemas que passaram despercebidos, indicar caminhos para aprimorar uma receita, ajudar a avaliar a consistência de um produto ou até inspirar o desenvolvimento de novas bebidas. É uma ferramenta de aprendizado que pode contribuir diretamente para a evolução de uma produção. Quando essas oportunidades existem, mas o produtor não procura conhecê-las, não participa e não busca retorno sobre o próprio trabalho, fica difícil atribuir todas as dificuldades exclusivamente ao mercado.
Eu falo isso porque também precisei aprender muita coisa do zero. Quando comecei a trabalhar com serigrafia, por exemplo, não tinha alguém me ensinando, não existia um curso disponível para cada etapa que eu precisava dominar. Eu precisava pesquisar, experimentar, cometer erros e encontrar maneiras de avançar. Lembro de quando tinha 13 ou 14 anos e consegui uma oportunidade de fazer um curso técnico em informática. Eu ia a pé de casa até o centro da cidade e voltava tarde da noite, mas entendia que aquela oportunidade poderia acrescentar alguma coisa à minha formação e ao meu currículo. Naquela idade, eu não tinha como saber exatamente onde aquela experiência me levaria, mas sabia que estava aprendendo algo que poderia ser útil no futuro. Foi assim em diferentes momentos da minha vida: quando surgia uma oportunidade de aprender alguma coisa que eu ainda não dominava, eu procurava aproveitá-la.
O que essas experiências me ensinaram é que tudo faz parte de um percurso. Aquilo que você começa a construir hoje pode não apresentar resultados imediatos, mas pode se tornar a base daquilo que você estará preparado para realizar daqui a cinco ou dez anos. E esses anos vão passar de qualquer maneira. A questão é o que você estará fazendo durante esse tempo. Você pode passar uma década esperando encontrar a oportunidade perfeita, acreditando que existe algum caminho mais fácil ou procurando uma fórmula que dispense o esforço necessário para desenvolver uma habilidade. Ou pode usar esse mesmo período para estudar, adquirir experiência, conhecer pessoas, aprimorar o próprio trabalho e construir uma trajetória que aumente suas possibilidades de alcançar os resultados desejados. O tempo não é garantia de sucesso, mas o conhecimento e a experiência acumulados ao longo dele podem fazer uma diferença enorme.
Gosto muito da visão do Rick Chester, um brasileiro que construiu sua trajetória e compartilha reflexões importantes sobre empreendedorismo, trabalho e desenvolvimento pessoal. Uma das ideias que mais me chamam a atenção é a importância de olhar para aquilo que estamos plantando hoje, em vez de ficar preocupados apenas com aquilo que estamos colhendo. Essa perspectiva ajuda a compreender que os resultados não aparecem isolados do caminho que percorremos. Antes de colher, é necessário plantar, cuidar, aprender a lidar com as dificuldades e continuar trabalhando. Não existe resultado consistente sem algum tipo de construção anterior, e isso vale tanto para a vida profissional quanto para qualquer negócio que pretendemos desenvolver.
O problema é que estamos cercados por uma internet que frequentemente vende uma ideia completamente diferente. Todos os dias aparecem promessas de que basta ter um celular para ganhar dinheiro, que é possível construir um negócio sem experiência, que basta comprar determinado curso, entrar em um programa de afiliados, trabalhar com dropshipping ou investir em alguma novidade para alcançar resultados extraordinários. É claro que a internet ampliou o acesso à informação e criou oportunidades que antes eram muito mais difíceis de encontrar. O problema está na ideia de que essas oportunidades dispensam conhecimento, preparação, trabalho e capacidade de execução. Não dispensam. Você pode até encontrar um caminho que exija menos investimento financeiro inicial, mas ainda precisará aprender, tomar decisões, desenvolver habilidades e lidar com problemas reais. Empreender continua sendo um processo de construção, independentemente da área escolhida.
No hidromel, não é diferente. Se você quer produzir uma bebida de qualidade, precisa estudar fermentação, compreender matérias-primas, dominar processos, avaliar resultados e aprender a identificar os problemas que surgem durante a produção. Se quer transformar isso em um negócio, também precisa compreender o mercado, desenvolver produtos adequados ao público, aprender sobre custos, precificação, vendas, posicionamento e gestão. Fazer um bom hidromel é uma parte importante do trabalho, mas não resolve sozinho todas as questões necessárias para sustentar uma empresa. Quanto mais você entende o setor e desenvolve suas competências, mais preparado fica para tomar decisões melhores e aproveitar as oportunidades que aparecem. E esse conhecimento não precisa ser construído exclusivamente por tentativa e erro: participar de cursos, encontros, concursos e congressos pode encurtar caminhos e ajudar a evitar problemas que outros produtores já aprenderam a resolver.
É justamente por isso que considero tão importantes as iniciativas de formação e integração do setor. A associação, os cursos, os encontros e o Congresso Técnico Brasileiro de Hidromel existem como oportunidades para quem deseja aprender, conhecer outros profissionais e desenvolver o próprio trabalho. Ninguém é obrigado a participar de tudo, mas é preciso compreender que construir uma trajetória profissional exige movimento. Não adianta esperar que alguém apareça na porta da sua casa com todas as respostas, ofereça as condições perfeitas e entregue o conhecimento necessário para fazer o seu negócio prosperar. Hoje temos acesso a uma quantidade enorme de informações, ferramentas e oportunidades, mas cabe a cada um decidir o que fará com elas.
Por isso, se você quer trabalhar com hidromel, melhorar a sua produção ou transformar essa atividade em uma fonte de renda, aproveite as oportunidades que estão surgindo. O segundo Congresso Técnico Brasileiro de Hidromel acontece no final de outubro e representa uma ocasião para ampliar conhecimentos, trocar experiências e conhecer pessoas que também estão construindo esse mercado. Informe-se sobre a programação, conheça as iniciativas da associação, participe dos cursos disponíveis e procure formas de avaliar e aprimorar os seus produtos. E, mesmo que o seu objetivo não seja trabalhar com hidromel, mas empreender em qualquer outra área, a lógica continua sendo a mesma: estude, aprenda, desenvolva habilidades e construa o seu percurso.
Essa é a minha visão, como Felipe Nogueira, a partir daquilo que vivi e continuo aprendendo como empreendedor. Não estou falando em nome de uma associação ou de qualquer outra instituição, mas compartilhando uma convicção que construí ao longo dos anos e que se confirmou em diferentes negócios. Viver de hidromel no Brasil pode ser difícil, sim, e reconhecer as dificuldades é importante para encontrar maneiras de superá-las. Mas também precisamos olhar para as nossas próprias atitudes e entender se estamos realmente fazendo o necessário para avançar. Porque, no fim das contas, não são apenas os prêmios, os títulos ou as oportunidades que definem uma trajetória. É aquilo que fazemos com o tempo que temos, com o conhecimento que buscamos e com as oportunidades que decidimos aproveitar. O futuro que você deseja construir começa nas decisões que está tomando hoje.