Tudo começa pelo mel - Homenagem Eloir Kich


Tudo começa pelo mel.

 Homenagem para Eloir Kich

Eu falo repetidamente nos meus conteúdos, vídeos e cursos sobre a importância da escolha do mel. E sempre faço questão de destacar, com orgulho, que os meus hidroméis são produzidos com mel da região dos Vales do Rio Grande do Sul. Não é apenas uma informação técnica ou geográfica. É porque realmente não é qualquer mel. É um mel especial. Um mel que já era extraordinário muito antes de passar pelas minhas mãos, ainda no campo, ainda dentro da caixa das abelhas.

Quando comecei minha jornada no mundo do hidromel, lá em 2015, passei praticamente um ano comprando todos os méis que encontrava pelo caminho para entender suas diferenças e descobrir quais realmente entregavam aquilo que eu buscava nas minhas receitas. Até que um dia, sem qualquer expectativa, encontrei a dona Madalena vendendo mel em uma feira. Comprei um pequeno pote, peguei seu contato e fui embora. Eu não fazia ideia de que aquele simples gesto daria início a uma amizade e a uma parceria que atravessaria tantos anos. Dona Madalena, seu Eloir e o filho Roger formavam uma família de apicultores do Vale dos Sinos que, sem saber, passaria a fazer parte da história da Norseman.

Ao longo desses anos utilizei méis de inúmeros apicultores. Muitos eram excelentes. Cada mel carrega seu terroir, sua identidade e a história de quem o produz. Mas, para mim, nenhum foi como o mel da família Kich. Era um mel que transmitia toda a riqueza da nossa região, mas que também carregava algo impossível de medir: o cuidado, a dedicação e a paixão de uma família inteira pelo que fazia. Seu Eloir construiu um legado que o tornou referência na apicultura da região, e foi justamente sobre esse trabalho que boa parte do meu próprio trabalho no hidromel foi construída. Antes de existir qualquer premiação, qualquer reconhecimento ou qualquer elogio aos meus produtos, já existia o mel da família Kich.



E talvez esse tenha sido o maior presente de todos: eu não encontrei apenas fornecedores. Encontrei amigos. Eu e o Roger desenvolvemos uma amizade que foi muito além do trabalho, unida por interesses em comum e, principalmente, pelo hidromel. Muito antes de existir hidromelaria estruturada, concursos ou medalhas, nós passávamos noites inventando receitas completamente malucas: mel com chocolate em barra, mel com guabiroba, mel com maçã e tantas outras experiências que hoje rendem boas lembranças e algumas poucas garrafas sobreviventes daquela época. Há poucos dias, inclusive, conversávamos justamente sobre isso. Falávamos em repetir aquelas aventuras fermentadas, porque o estoque dessas pequenas relíquias está chegando ao fim.



Ontem, 26 de julho de 2026, recebi a notícia de que seu Eloir Kich nos deixou de forma repentina. Foi uma notícia difícil de acreditar. Com ele aprendi muito sobre mel, sobre apicultura e sobre o valor do trabalho no campo. Sempre me marcou sua disposição, sua alegria e o entusiasmo que mantinha mesmo depois de um dia inteiro de trabalho pesado. E, entre uma conversa e outra, havia uma frase que ele repetia com convicção: o segredo da saúde era comer mel.

Hoje fica um vazio, mas também uma enorme gratidão. Seu Eloir foi pai, marido, amigo, parceiro e um trabalhador incansável. Assim como as abelhas que dedicou a vida inteira a cuidar, talvez nunca seja possível medir o verdadeiro impacto que deixou no mundo. Porque o trabalho de um apicultor não termina no mel que ele produz. Ele floresce nas pessoas que alimenta, nas famílias que sustenta, nas histórias que ajuda a construir e nas sementes que planta para as próximas gerações.

Deixo meu abraço, minha força e os mais sinceros sentimentos ao meu amigo Roger, à dona Madalena e a toda a família Kich. Que encontrem conforto ao olhar para tudo aquilo que seu Eloir construiu durante a vida. Obrigado por tudo, Eloir. Parte do que plantei em minha história sempre começará no mel que você colheu.




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