Casa da Misericórdia - ONG para dependentes químicos


Casa da Misericórdia: um lugar onde recomeçar ainda é possível

Em Taquara/RS, uma instituição criada em 2013 transforma acolhimento, trabalho, fé e solidariedade em oportunidades para pessoas que enfrentam a dependência química.

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Celular de Elvonir Correia


Há lugares que são construídos com paredes, telhados e portas. Outros são construídos, sobretudo, com pessoas. A Casa da Misericórdia, em Taquara, no Rio Grande do Sul, pertence a essa segunda categoria. Fundada em 2013 por Elvonir Correia, a instituição nasceu com o propósito de oferecer abrigo, alimentação e acolhimento a pessoas que enfrentam a dependência química, incluindo o alcoolismo. Ao longo dos anos, tornou-se um espaço de reconstrução de histórias, onde o cuidado não se limita às necessidades materiais, mas procura alcançar também as dimensões emocional, social e espiritual de quem chega em busca de uma nova oportunidade.

Mantida por doações e recursos próprios, a Casa da Misericórdia desenvolveu uma dinâmica baseada na participação dos próprios acolhidos. O trabalho cotidiano faz parte da rotina da instituição e também do processo de reintegração. Os moradores cuidam da horta, participam do preparo das próprias refeições, realizam a limpeza dos ambientes e colaboram com a manutenção e a construção dos espaços. Não se trata apenas de manter uma casa funcionando, mas de devolver às pessoas a possibilidade de participar, produzir, assumir responsabilidades e perceber que ainda podem contribuir para algo maior do que suas próprias dificuldades.

Esse princípio aparece de maneira muito concreta no cotidiano. A horta, por exemplo, não representa somente uma fonte de alimentos. O cultivo da terra exige tempo, cuidado, disciplina e paciência. Da mesma forma, preparar uma refeição, limpar um ambiente ou participar de uma obra pode parecer uma tarefa simples, mas, dentro de uma rotina de acolhimento, essas atividades ajudam a reconstruir vínculos com o trabalho, com a responsabilidade e com a própria capacidade de realização.

A proposta da Casa da Misericórdia também passa pelo entendimento de que a recuperação não acontece de maneira isolada. Por isso, o espaço recebe encontros dos Alcoólicos Anônimos (AA) e possui uma capela própria, onde são realizadas celebrações e onde, periodicamente, padres e outros sacerdotes visitam a instituição. A dimensão espiritual ocupa, assim, um lugar importante dentro da proposta de acolhimento, oferecendo aos moradores um ambiente de reflexão, oração e busca de sentido.

A capela é mais do que um espaço religioso. Dentro da realidade da instituição, ela também representa um lugar de silêncio, convivência e esperança. Para pessoas que muitas vezes chegam carregando histórias marcadas por perdas, conflitos familiares, isolamento e dependência, encontrar um ambiente no qual possam simplesmente parar, refletir e serem recebidas pode ter um significado profundo.


Uma casa mantida pela solidariedade

Uma das características mais importantes da Casa da Misericórdia é justamente a forma como ela se mantém. Sem depender exclusivamente de uma grande estrutura institucional, a organização sobrevive por meio de doações e recursos próprios, contando também com o trabalho coletivo realizado diariamente pelos acolhidos.

Essa realidade torna a solidariedade uma parte fundamental da existência da instituição. Cada contribuição pode ajudar a manter uma estrutura que precisa oferecer alimentação, abrigo, manutenção e condições dignas para as pessoas que vivem no local. Mais do que uma contribuição financeira, uma doação representa participação em um processo que busca oferecer uma segunda oportunidade a quem está tentando reconstruir a própria vida.

Atualmente, 28 pessoas são acolhidas pela instituição. O número, porém, já foi maior. Em 2024, a Casa da Misericórdia chegou a atender mais de 40 moradores, demonstrando a dimensão da demanda existente e a importância de espaços capazes de oferecer acolhimento a pessoas em situação de dependência química.


Reintegração também significa recuperar a dignidade

Existe uma diferença importante entre simplesmente abrigar alguém e oferecer condições para que essa pessoa possa reconstruir sua trajetória. A Casa da Misericórdia procura atuar justamente nessa segunda dimensão.

O trabalho realizado pelos acolhidos, o cuidado com a horta, a preparação das refeições, a manutenção dos espaços, a convivência, os encontros do AA e as atividades religiosas formam uma rotina na qual cada pessoa deixa de ser apenas alguém que recebe ajuda e passa a participar ativamente da vida comunitária.

É uma perspectiva baseada na dignidade. Em vez de definir alguém apenas pela dependência que enfrenta, a instituição busca enxergar a pessoa para além do problema. Há uma história antes da dependência, há relações que podem ser reconstruídas, habilidades que podem ser recuperadas e, principalmente, existe a possibilidade de um futuro diferente.

Isso não significa romantizar a dependência química ou ignorar a complexidade do processo de recuperação. Pelo contrário. Significa reconhecer que enfrentar uma dependência exige muito mais do que vontade individual. Exige suporte, estrutura, convivência, acompanhamento e, muitas vezes, uma rede de pessoas dispostas a permanecer ao lado de quem está tentando recomeçar.


Um trabalho feito por muitas mãos

A história da Casa da Misericórdia também é a história das pessoas que ajudam a mantê-la de pé. Elvonir Correia, fundadora e responsável pela ONG, está à frente de um trabalho que depende da colaboração de acolhidos, voluntários, doadores, religiosos e de todos aqueles que, de alguma maneira, contribuem para a continuidade da instituição.

Em um cenário no qual muitas pessoas em situação de dependência acabam afastadas de suas famílias, de seus empregos e de seus círculos sociais, a existência de um espaço de acolhimento pode representar uma ponte entre uma realidade marcada pela dificuldade e a possibilidade de reconstrução.

Essa ponte não é construída de uma só vez. Ela é feita diariamente, em pequenas tarefas e decisões: plantar, cozinhar, limpar, construir, conversar, rezar, participar de uma reunião, dividir uma refeição e aprender novamente a conviver.

É justamente nessa simplicidade que existe uma das maiores forças da Casa da Misericórdia.


Acreditar em uma segunda chance

A dependência química pode destruir relações, oportunidades e perspectivas. Mas uma história difícil não precisa ser necessariamente uma história encerrada.

A Casa da Misericórdia parte de uma ideia simples e poderosa: acolher, cuidar e transformar vidas. Não existe promessa de caminho fácil. Existe, porém, a oferta de um lugar onde alguém pode encontrar abrigo, alimentação, convivência, trabalho, espiritualidade e, principalmente, a oportunidade de tentar novamente.

Em uma sociedade que muitas vezes olha para a dependência química apenas através do estigma, iniciativas como essa lembram que por trás de cada dependência existe uma pessoa. Alguém que pode ter perdido muito, mas que ainda pode recuperar parte do que parecia impossível recuperar.

Talvez seja justamente essa a maior mensagem deixada pela Casa da Misericórdia: um novo caminho pode começar quando alguém encontra acolhimento suficiente para acreditar que ainda existe um caminho.

E, para que esse trabalho continue existindo, a solidariedade de outras pessoas também é necessária.



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Casa da Misericórdia
Taquara/RS

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